sexta-feira, 23 de março de 2007

O princípio da nossa ilusão...

Hoje conto-vos uma outra história, bem real, passada comigo, no país mais pobre do Mundo.

Era fim-de-semana o tempo estava quente... muito quente mesmo. Era Verão, estava um dia deslumbrantemente luminoso e soalheiro. Neste país o tempo tem uma dimensão diferente, parece que se dilata...

Era de manhã e não tinha nada de especial para fazer, por isso decidi ir dar uma volta de carro pelos subúrbios daquela cidade. Saí do hotel de cinco estrelas onde estava hospedado, ia particularmente descontraido e relaxado, pois não tinha qualquer compromisso nesse dia.

Era minha intenção sair sem destino nem rumo, queria observar, queria sentir apenas, sabia intuitivamente que naquele dia iria acontecer algo que jamais me poderia esquecer.

De início, as voltas que dei até à saída da cidade foram por bairros bem arranjados e limpos, de vivendas isoladas com guarda privada, o que por fora indiciava serem habitadas por homens de negócios, diplomatas ou até famílias abastadas. Mas à medida que fui andando, a paisagem mudou abruptamente...

Onde antes havia limpeza, opulência e luxo, agora viam-se barracas feitas de caniço, que exalavam um cheiro muito próprio de não terem água canalizada nem saneamento básico. Pude observar mais de perto as condições em que as pessoas habitavam estas habitações e posso-vos garantir que existem galinheiros cá na nossa terra, com melhores condições sanitárias e de higiene que aquelas habitações tão frágeis quanto simples era a sua construção.

Mas as pessoas aí viviam simplesmente, mas com a mesma vivacidade de uma cidade “normal” de cimento. Só que sem, água, sem electrididade, nem televisão, nem nenhuma daquelas “coisinhas” que já mal sabemos apreciar.

Fui andando até sair completamente da cidade e fui tranquilamente apreciando a paisagem e a forma como funcionavam os transportes públicos sub-urbanos ou o que se podia chamar como tal, pois eram camionetas de caixa aberta que paravam na berma da estrada para carregar passageiros, os quais se aglomeravam naquele espaço da caixa, com condições de segurança absolutamente inexistentes.

No regresso entrei na cidade por uma zona diferente, por onde antes nunca tinha entrado. Mesmo antes de começar a cidade de cimento, parei e fiquei a apreciar um grupo de crianças que se divertiam, brincavam e até cantavam.

Banhavam-se numa espécie de cascata que desaguava para uma praia. Tratava-se de um esgoto da cidade de cimento que ali desembocava.

O cheiro era nauseabundo, mas as crianças ali estavam na brincadeira a refrescarem-se divertidíssimas. A água era visivelmente suja, mas elas ali chapinhavam e mandavam com aquela água uns aos outros.

Para mim pensava... Como era isto possível? Será que os pais sabiam que elas estavam ali? Como era permitido? E elas ali continuaram...

Era tão extraordinária e divertida a brincadeira que por uns momentos abstrai-me de todo o contexto envolvente e fiquei apenas a observar a brincadeira das crianças...

Voltei ao hotel com aquelas imagens na cabeça e fui tomar banho na piscina do tal hotel de cinco estrelas... Mais tarde, começaram a assaltar-me uma série de questões que agora também partilho convosco:
- Eram felizes aquelas crianças? Mas se não eram porque então estavam tão divertidas e tão animadas?
- Como se pode ser feliz com tantas carências e tanta pobreza? Será que se pode afinal?
- Será que a total indigência é afinal uma das condições para se ser feliz?
- E a posse? Nestas sociedades a posse dá lugar ao usufruto porque simplesmente nada podem possuir, porque a probreza é tal que os poucos recursos que dispõem mal dão para comer. Como se pode ser feliz assim? Simplesmente vivendo e usufruindo a vida... Como é possível viver assim?

Nunca mais poderei esquecer todas aquelas imagens, cheiros, vivências e só agora começo a saber as respostas a todas estas questões que então coloquei...

Fiquem bem.

(A Mónada)


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9 comentários:

SILENCIO disse...

Obgda pelas palavras deixadas no meu blog. Vi que este teu blog tem muuuito interesse. Voltartei mais logo para aprecia-lo convenientemente.
Bjs

Claudia Perotti disse...

Agradeço-te a visita em minha página e o doce comentário que deixaste.

Gostei imenso da tua página, dos textos, da canção e da meditação tb.Voltarei!!!!


Beijinhossssss

Anaïs disse...

Obrgada pela visita e palavras deixadas no meu blog, enquanto não nos amarmos, nunca encontraremos o amor é certo...eu ainda não perdi a esperança de me encontrar a mim própria.

Beijos.

o alquimista disse...

Olá Avatara...

Nasceu a manhã
Agita-se a ilha
Tanta emoção
Chegou mais um dia

Quatro palmos de terra
Cobrem estes rochedos
Sete ventos de encanto
Guardam mil segredos

Tantas são as histórias
De lendas, de aventura
Em noites de temporal
Contadas por gente pura

Gente de poucas palavras
Mas de muita convicção
Que vive cada momento
Com sincera emoção

E é com este poema que retomo o contacto após alguns dias cheio de problemas no computador…

Bom fim de semana
Doce beijo

Anónimo disse...

As crianças estavam felizes porque ainda não tinham aprendido a comparar. Quando alguém lhes disser que a água está suja e que provoca doenças então elas começarão a adoecer(a entristecer)
CN

. R disse...

Porque nas crianças não há maldade, não há crueldade, não há pobres nem ricos, não há inveja nem ciúme...

...no fundo, não há diferença entre a àgua que sai do esgoto e a àgua tratada em que te banhavas na piscina...

...pois para elas, é só isso àgua... e toda a sua pureza! Deves tê-lo visto na sua alegria!

Parabéns! Textos fantásticos!

Beijo,

Rita

A Mónada disse...

Agradeço a todos os "viajantes" desta NAVE que aqui partilharam os seu sentir ao comentarem este post.

Deixem que aqui expresse alguns pensamentos meus...

anais: Encontrares-te a ti própria talvez não seja o mais dificil. Agora aceitares-te tal como és é que poderá ser o mais complicado.

Temos o mau hábito de proferirmos contra nós processo de culpa, de nos julgarmos e auto-punirmo-nos.

O pior é que achamos que isso corresponde a uma vontade de mudança.

Assim como é que se pode encontrar o Amor?

É pois na capacidade que temos de nos observarmos e sentirmos (sem julgamentos, objecções ou críticas) e da procura do nosso silêncio interior é que reside o verdadeiro segredo.

Vais ver que aos poucos e poucos o coração terno, a paz, a serenidade e por fim o Amor te vão invadindo. A partir de algo que tens lá bem no fundo do teu corpo.

Só ele poderá transmutar o que menos gostas em ti. E só assim encontrarás o sentir do AMOR.

Alquimista: Mas que belo poema aqui deixaste com o sentir do ilhéu. Que belo e mágico presente para todos os que o lerem aqui na NAVE. OBG. Bem hajas.

Célia e Rita: É de veras engraçado pois o que escreveram foi o meu primeiro pensamento também. Mas depois reparei que mesmo as gentes que vivem nos caniços, vivem com a mesma vivacidade e alegria (às vezes até mais) dos que vivem da cidade de cimento.

Não acredito que não comparem. Não acredito que não desejem ter uma melhor qualidade de vida...

No entanto deixam simplesmente fluir a vida, gozando o momento presente, o agora, e usufruindo do que têm, sem grande apegos.

Foi isto que aprendi, foi isto que foi a minha lição...

Fiquem bem,

Anónimo disse...

Querida Mónada,

isto de ser anónima às vezes é engraçado. Então agora chamo-me Célia? Não é a 1ª vez que me confundem... :)

Concordo que é inevitável a comparação. Necessário, até, pois, se não se compara, nunca se deixa de ser criança, por muito agradável que seja a infância...
Um abraço da anónima que um dia talvez tenha um blog para tentar crescer...
CN

A Mónada disse...

CN:

Antes de mais o meu pedido de desculpas pela troca de nomes.

É excelente a ideia de fazeres nasceres um Blog... Este também nasceu assim... com um grande pedido de ajuda que até hoje nunca me faltou...

Um abraço cheio de LUZ para ti.

Fica bem...